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Fazenda Ariquipá abre as portas para festejar Divino Espírito Santo

DSC_0855A casa grande da Fazenda Ariquipá, em Bequimão, voltou a ter a movimentação dos seus tempos áureos. No sábado (16) e domingo (17), os herdeiros de Antônia Soares, a Tunica, e Raimundo Magalhães Ramalho, o Nhô Nhô, abriram as portas da morada histórica para uma festa ao Divino Espírito Santo, como pagamento de promessa.

Muito engajada na Renovação Carismática Católica (RCC), a filha Terezinha Ramalho pediu por uma graça no momento em que viu as terras da família ameaçadas.  Ela foi surpreendida por uma correspondência da Justiça, que informava a penhora da fazenda. Ocorre que a propriedade era registrada somente em nome do seu pai, que nunca se casou com Tunica, porque a família dele desaprovava a união.

DSC_0882Branco, descendente de portugueses, Nhô Nhô nasceu em Alcântara e, aos 18 anos, saiu de casa para viver com Tunica, que era mulata. O pai nunca aceitou a escolha do filho. Quando ia visitá-lo, não chegava até a cozinha, evitando o encontro com a nora. Quem conta essa história é dona Socorro, 82 anos, que mora na Fazenda Ariquipá desde os 12 anos. Segundo ela, o casal superou a reprovação da família com o sentimento forte que os uniu. “Para amor não tem querer”, disse, com sorriso no rosto.

Sem o casamento, a divisão dos bens entre os herdeiros ficou comprometida. Então, Terezinha Ramalho, a filha que mais assistiu a mãe até o fim, ficou responsável por resolver o problema. Foram dois anos de espera e angústia, mas sempre com fé no Espírito Santo. Num certo dia, em que havia ido a Pinheiro/MA somente para saber como estava o processo, ela encontrou o documento já pronto e tudo se resolveu. “Quis me ajoelhar ali mesmo para agradecer”, relembrou.

Mais de 10 anos se passaram até que a promessa de fazer a festa ao Divino Espírito Santo se cumprisse. No final de semana, a programação foi intensa. Teve tambor de crioula, caixeiras, missa, almoço e muitos fogos de artifício. “Restaurei a casa para fazer essa festa. Matei dois bois, porco”, alegrou-se Terezinha.

A comunidade do Ariquipá e vários moradores do Centro de Bequimão participaram da festa. O prefeito Zé Martins, o secretário de Agricultura, Creuber Pereira, e a secretária de Cultura e Promoção da Igualdade Racial, Dinha Pinheiro, prestigiaram a homenagem ao Divino Espírito Santo. Depois de cumprimentar os convidados da festa, Zé Martins recebeu as bênçãos pelas mãos da anfitriã, que pôs a imagem de uma pomba sobre a cabeça dele.

Fazenda Ariquipá

Raimundo Magalhães Ramalho e Antônia Soares chegaram a Ariquipá para cuidar da fazenda de um primo de Nhô Nhô chamado Augostinho Ramalho. “Ele tinha muitos negócios e resolveu vender a fazenda para o meu pai”, explicou Terezinha. Foi nesse lugar que o casal viveu junto por 65 anos. Lá, o patriarca também começou a exercer seu espírito de liderança, que o levou, mais tarde, a ser prefeito de Bequimão, por duas vezes, e presidente da Câmara Municipal de Vereadores.

DSC_0924A Fazenda Ariquipá possuía um dos maiores engenhos da região. A matéria prima era retirada do canavial da própria terra de Nhô Nhô, para produção de açúcar. Na comunidade, a população formada, basicamente, por descendentes de escravos encontrou lugar para trabalhar. “Meu pai nunca usou chibata. Mesmo assim, sempre foi respeitado. O caboclo chegava na porta e ele deitado numa rede aqui, e o caboclo já ia tirando as esporas, o facão da cintura, para falar com meu pai. Sempre foi respeitado pela maneira tratável que ele tinha”, orgulha-se Terezinha.

Na lembrança de dona Socorro, por sua vez, ficaram as noites de festa e a mesa farta para receber os vaqueiros que ajudavam a ferroar o gado. “Tudo de muito tinha aqui. Os vaqueiros chegavam e tinha mesa posta, doce de ginja, doce de leite”, lembrou a senhora que acompanhou Tunica até o dia de sua morte, muitos anos depois de Raimundo Magalhães Ramalho ter falecido.

A casa grande teve sua estrutura preservada. No interior, os diversos cômodos guardam objetos antigos, que ajudam a reconstruir a bela história do lugar.

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